sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Olha só que estava na aqui...

Agora que o trabalho aperta novamente e as férias parecem nda mais do que um sonho utópico, totalmente desenraizado da realidade, aqui vos deixo uma pequena recordação que trouxe na mala, meio enrolada na toalha, ainda salpicada de areia...
Acreditem e daqui a algum tempo, não tão pco ou tanto como alguns desejariam, elas estarão de volta!
E o bom das férias, mais que ñ seja: um tempo semi-infinito (melhor ainda, estratósférico) para fazer tdo o que nos der "na real gana" ... ou, se calhar, para não fazer nda!!

Um salgado e solarengo bom trabalho :)

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Uma noite encantada, para o resto da vida.

Ela pegou-lhe na mão e conduziu-o.
Quase sem dar por isso, começaram a ouvir o ranger das escadas enquanto subiam o caracol de madeira até ao sótão. Um ranger sinuoso que, em vez de os devolver à realidade, os fazia mergulhar ainda mais fundo no sonho que partilhavam.
Entrelaçou os dedos na mão dele e um arrepio de felicidade pura, de conforto percorreu-o ao sentir o calor que ela emanava, um calor agora só seu.
Ela apercebeu-se e sorriu-lhe de volta e o seu sorriso guiou-o até ao piso de cima. Ela pegou no gancho e abriu a janela que dava para o pequeno varandim inacabado e praticamente inacessível. Com um pequeno e ágil impulso, içou-se para o parapeito onde olhou a noite tão clara.
Ainda segurando-lhe a mão, agora bastante abaixo dela, ele pôde comtemplar o recorte da sua silhueta contra o prateado da lua, contra o empedrado celeste. A sua saia ondulava na brisa nocturna e o cabelo parecia flutuar sobre uma maré soberana e fluvial. Como que extasiada pela vista daquela noite estrelada sobre o casario, nada disto lhe passou percebido - apenas o toque dele, afagando-lhe o braço foi capaz de a devolver à realidade.Estendeu-se para o lado, permitindo-lhe também subir ao parapeito e sentar-se nas águas-furtadas.
Lado a lado, inundados por uma sensação de paz e plenitude, viram a forma mágica como uma enorme lua espalhava um fulgor de espelhos sobre o rio, já ali, e uma luz pardacenta escorria pelos ladrilhos das ruas desertas àquela hora. Ao fundo, um carro com motor de corta-relva aparava o silêncio da noite, levando o zumbido para longe. Ali, só eles e as estrelas, o enorme tecto do mundo, onde, se calados, conseguiriam ouvir o sono de Deus.
Recostaram-se sobre as telhas com a cidade a seus pés, uma colónia de pirilampos eléctricos intermitentes. Ele estendeu a mão e tocou-lhe na ponta do nariz gelado, como o ar daquela noite fria e clara de inverno. Arqueando o corpo, tirou o casaco e tapou-a, aconchegando-a contra si, tentando quebrar o gelo que se abatia sobre eles.Aproximou-se mais um pouco e, num murmúrio calado, sussurrou-lhe ao ouvido. Com um riso abafado e divertido, ela assentiu, levantando-se e dobrando o casaco dele sobre as telhas lascadas por mil tempestades.
Largando a sua mão, ela caminou sobre i cimento rugoso, sentindo o chamamento do mundo sobre a planta nua dos seus pés. Abeirou-se e viu a altura a que estava; sentiu o ar nos cabelos soltos pelas costas e embalou-se na providência do que a separava de uma morte certa alguns andares mais abaixo.


Aparecendo por detrás, ele tomou-a pela cintura e afastou-a do precipício. Rodopiando na ponta dos seus pés descalços, abriu os seus braços para o firmamento e deixou-se cair sobre ele, deslizando quase até ao chão. Agarrando-a pela cintura, ele puxou-a para ele. Um beijo incendiado incendiou-lhe o desejo e ela pegou-lhe na mão, endireitando-se e enrocando o braço no seu pescoço, olhando-se, frente a frente. Ele sentiu-se parte dela e fundiram-se num só ser, unidos numa dança sagrada, sob uma lua em quarto crescente. Sentiu-o ali, tão seu mas tão efémero, perdido na passagem do tempo, destinado a um fim terreno guiado pelo inexorável fluir do tempo:

"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa(...)"

Ele olhou as suas curvas pinceladas que o tempo esbateria, o seu toque suave que endureceria. Ela sentiu os seus músculos fortes que definhariam em anos, e o batimento acelerado do coração que, tlv não daí a muito, pararia.
A valsa muda um dia pararia, um ou outro partiria, com alguma sorte tlv os dois, mas nada real ficaria daquela noite perfeita. Os passos sincronizados foram diminuindo, e quando ele a pisou souberam que a altura chegara, o segundo determinado. Olharam a noite derradeira, e deixaram-se inundar daquela inoculidade passageira do beu noctívago.
Deram as mãos com muita força. Tinham amado as duas rosas, regado as suas plantas da única forma que fazia sentido - juntos. Não deixariam que o fluxo do rio continuasse, que viesse do passado, por eles passasse e que para sempre seguisse - eles eram mais que isso e estavam à beira do cais, a vida passava e a decisão era deles. Apenas uma recordação suave não chegaria.
Ele deu-lhe um beijo na face rosada e Lídia sorriu. Desta vez não se sentaria apenas a seu lado, não, desta vez dera-lhe a mão e não ficaria por aqui. Sentiu a porosidade das telhas sob oes pés descalços e o vento agreste que se levantara e agora lhe rodava a saia enfunada. Entrelaçaram os dedos e com o casaco dele por pára-quedas, saltaram do cais improvisado.

sábado, janeiro 28, 2006

Xiiiii... já não dava notícias desde o ano passado!
Tenho andado um pouco atarefada entre frequências e trabalhos e nem dei pelo passar do tempo sem postar por estas bandas. Mas senti uma falta enorme de ter tempo para imaginar historietas e pequenos relatos mais míticos da vida urbana. Afinal, nas viagens de comboio substituí (à força, que fique registado) um bloco de notas por maços de sebentas que aos poucos vão ficando...sebentas!
O problema é que agora, que aos poucos vou voltando à normal vida de estudante (vida normal e estudante na mesma frase...estranhuuu), parece que tantas colheradas de informação que tive de engolir de todas as disciplinas me toldaram um pco a imaginação: afinal, um romance entre uma cavidade olecrâneana e um Odds ratio, mesmo que Cheia de Força, isto é, muita massa a multiplicar pela aceleração de l'amour, não é propriamente muito estimulante..mesmo que se passe no seio de uma glândula serpiginosa, por exemplo, sudorípara.
Ahh, não seria nada que uma pitada de imaginação não conseguisse transformar num..num...quê?
Acho que vou fazer uma desintoxicação à base de Joanne Harris, Tolkien, Sir Conan Doyle. Parece ser mesmo grave - é melhor terapia de choque: ampolas de Eça de Queirós para restabeler forças e fé na literatura...