Uma noite encantada, para o resto da vida.
Ela pegou-lhe na mão e conduziu-o.
Quase sem dar por isso, começaram a ouvir o ranger das escadas enquanto subiam o caracol de madeira até ao sótão. Um ranger sinuoso que, em vez de os devolver à realidade, os fazia mergulhar ainda mais fundo no sonho que partilhavam.
Entrelaçou os dedos na mão dele e um arrepio de felicidade pura, de conforto percorreu-o ao sentir o calor que ela emanava, um calor agora só seu.
Ela apercebeu-se e sorriu-lhe de volta e o seu sorriso guiou-o até ao piso de cima. Ela pegou no gancho e abriu a janela que dava para o pequeno varandim inacabado e praticamente inacessível. Com um pequeno e ágil impulso, içou-se para o parapeito onde olhou a noite tão clara.
Ainda segurando-lhe a mão, agora bastante abaixo dela, ele pôde comtemplar o recorte da sua silhueta contra o prateado da lua, contra o empedrado celeste. A sua saia ondulava na brisa nocturna e o cabelo parecia flutuar sobre uma maré soberana e fluvial. Como que extasiada pela vista daquela noite estrelada sobre o casario, nada disto lhe passou percebido - apenas o toque dele, afagando-lhe o braço foi capaz de a devolver à realidade.Estendeu-se para o lado, permitindo-lhe também subir ao parapeito e sentar-se nas águas-furtadas.
Lado a lado, inundados por uma sensação de paz e plenitude, viram a forma mágica como uma enorme lua espalhava um fulgor de espelhos sobre o rio, já ali, e uma luz pardacenta escorria pelos ladrilhos das ruas desertas àquela hora. Ao fundo, um carro com motor de corta-relva aparava o silêncio da noite, levando o zumbido para longe. Ali, só eles e as estrelas, o enorme tecto do mundo, onde, se calados, conseguiriam ouvir o sono de Deus.
Recostaram-se sobre as telhas com a cidade a seus pés, uma colónia de pirilampos eléctricos intermitentes. Ele estendeu a mão e tocou-lhe na ponta do nariz gelado, como o ar daquela noite fria e clara de inverno. Arqueando o corpo, tirou o casaco e tapou-a, aconchegando-a contra si, tentando quebrar o gelo que se abatia sobre eles.Aproximou-se mais um pouco e, num murmúrio calado, sussurrou-lhe ao ouvido. Com um riso abafado e divertido, ela assentiu, levantando-se e dobrando o casaco dele sobre as telhas lascadas por mil tempestades.
Largando a sua mão, ela caminou sobre i cimento rugoso, sentindo o chamamento do mundo sobre a planta nua dos seus pés. Abeirou-se e viu a altura a que estava; sentiu o ar nos cabelos soltos pelas costas e embalou-se na providência do que a separava de uma morte certa alguns andares mais abaixo.
Aparecendo por detrás, ele tomou-a pela cintura e afastou-a do precipício. Rodopiando na ponta dos seus pés descalços, abriu os seus braços para o firmamento e deixou-se cair sobre ele, deslizando quase até ao chão. Agarrando-a pela cintura, ele puxou-a para ele. Um beijo incendiado incendiou-lhe o desejo e ela pegou-lhe na mão, endireitando-se e enrocando o braço no seu pescoço, olhando-se, frente a frente. Ele sentiu-se parte dela e fundiram-se num só ser, unidos numa dança sagrada, sob uma lua em quarto crescente. Sentiu-o ali, tão seu mas tão efémero, perdido na passagem do tempo, destinado a um fim terreno guiado pelo inexorável fluir do tempo:
"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa(...)"
Ele olhou as suas curvas pinceladas que o tempo esbateria, o seu toque suave que endureceria. Ela sentiu os seus músculos fortes que definhariam em anos, e o batimento acelerado do coração que, tlv não daí a muito, pararia.
A valsa muda um dia pararia, um ou outro partiria, com alguma sorte tlv os dois, mas nada real ficaria daquela noite perfeita. Os passos sincronizados foram diminuindo, e quando ele a pisou souberam que a altura chegara, o segundo determinado. Olharam a noite derradeira, e deixaram-se inundar daquela inoculidade passageira do beu noctívago.
Deram as mãos com muita força. Tinham amado as duas rosas, regado as suas plantas da única forma que fazia sentido - juntos. Não deixariam que o fluxo do rio continuasse, que viesse do passado, por eles passasse e que para sempre seguisse - eles eram mais que isso e estavam à beira do cais, a vida passava e a decisão era deles. Apenas uma recordação suave não chegaria.
Ele deu-lhe um beijo na face rosada e Lídia sorriu. Desta vez não se sentaria apenas a seu lado, não, desta vez dera-lhe a mão e não ficaria por aqui. Sentiu a porosidade das telhas sob oes pés descalços e o vento agreste que se levantara e agora lhe rodava a saia enfunada. Entrelaçaram os dedos e com o casaco dele por pára-quedas, saltaram do cais improvisado.